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Espaço e território: um debate em torno de conceitos-chave para a geografia crítica

Espaço e território: um debate em torno de conceitos-chave para a geografia crítica
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  41 Revista Espinhaço, 2013 2(1): 41-51 Espaço e território: um debate em torno de conceitos-chave para a geografia crítica João Bosco Moura Tonucci Filho 1* 1 Economista, Mestre em Arquitetura e Urbanismo (USP) e Doutorando em Geografia (UFMG). Resumo:   Esse trabalho tem como objetivo discutir as possíveis aproximações e distinções entre espaço e território, dois conceitos-chave da geografia crítica, frequentemente utilizados como sinônimos quando pensados como referência à dimensão geográfica dos fenômenos sociais. Para tanto, serão apresentadas e discutidas as concepções de espaço social  para Henri Lefebvre, de  espaço geográfico  (ou território usado ) para Milton Santos, e de território  para Rogério Haesbaert. A partir de uma abordagem comparativa entre as três formulações teórico-conceituais, procura-se apontar as concordâncias e discordâncias entre os autores, e possíveis interseções e distinções entre os conceitos trabalhados. Considera-se que os conceitos de espaço e território, formulados numa perspectiva crítica, são cada vez mais centrais ao entendimento do mundo contemporâneo.   Palavras-chave: geografia crítica, espaço social, espaço geográfico, território.   1.   Introdução: conceitos-chave na geografia crítica A construção de conceitos é parte indissociável de qualquer esforço teórico de compreensão do real. Para Roberto Lobato Corrêa (1994), a geografia, ciência voltada ao entendimento dos fenômenos de natureza espacial, desenvolveu cinco conceitos-chave: paisagem, região, espaço, lugar e território. Cada um desses conceitos guarda variados significados e é objeto de intensos debates teóricos, conforme a corrente de pensamento a que se filiam e as variadas circunstâncias em que são utilizados. A geografia crítica – ou radical –, que se desenvolveu intensamente na década de 1970, tem como fundamentação filosófica o materialismo dialético de Marx e Engels. Gestada no contexto de crise urbana e das múltiplas lutas sociais que eclodiram nos anos 60, essa corrente surgiu como reação à crescente hegemonia da nova geografia teorética de cunho neopositivista, cujo foco no estudo descritivo e sistêmico dos padrões espaciais impedia o entendimento dos processos socioeconômicos e ideológicos subjacentes. Sua principal contribuição teórica ao campo da geografia diz respeito à tentativa de integração dialética entre a análise das estruturas e processos espaciais aos processos e relações sociais, alimentada pela perspectiva da transformação social radical (CHRISTOFOLETTI, 1982). Esse artigo tem como objetivo discutir as possíveis aproximações e distinções entre espaço e território, dois conceitos-chave da geografia crítica 1 , frequentemente utilizados como sinônimos quando pensados como referência à dimensão geográfica dos fenômenos sociais. Para tanto, serão apresentadas e discutidas as concepções de * jontonucci@gmail.com espaço social  para Henri Lefebvre, de  espaço geográfico  (ou território usado ) para Milton Santos, e de território  para Rogério Haesbaert. A escolha dessas categorias reflete uma circunscrição do início de debate aqui proposto à corrente da geografia crítica de inspiração marxista. Daí a não referência aos outros conceitos-chave na geografia, ainda que as mesmas possam estar subentendias nas concepções de espaço e território. Contrariando as teses de desaparecimento da importância do espaço ante o avanço da globalização capitalista, Soja (1989) observa nas últimas décadas do XX uma reinserção da problemática espacial na teoria social crítica. De espaço receptáculo e palco dos acontecimentos, passa-se cada vez mais ao entendimento do espaço como elemento ativo e dinâmico na constituição e transformação da sociedade. Haesbaert (2012) critica a ideia de desterritorialização, apresentada geralmente como decorrente da compressão do espaço e do tempo, da erradicação das distâncias, da fragilização das fronteiras e da crise do Estado-nação, processos associados à globalização e à difusão da comunicação instantânea. Entretanto, para o autor, o enfraquecimento da mediação espacial nas relações sociais esbarra na emergência de novos processos que reenfatizam uma base geográfica, como a questão ecológica, o acesso a recursos naturais, a delimitação de novas fronteiras, novos regionalismos etc. Num sentido mais amplo, não se poderia nunca falar-se de um “fim dos territórios”, na medida em que o conceito de sociedade implicaria sempre a sua concomitante espacialização/territorialização. A despeito do discurso do mundo plano, integrado e homogêneo idealmente promovido pela globalização capitalista, no qual os aspectos geográficos dos fenômenos sociais teria sua importância reduzida, espaço e território são cada vez mais mobilizados como conceitos centrais ao esforço de compreensão do mundo contemporâneo. Daí a importância de se avançar no debate teórico em torno das  42 suas definições no âmbito da geografia crítica, campo em foram elaborados de maneira mais avançada e em diálogo com os debates mais amplos das ciências sociais. É o que aqui se propõe. 2.   O espaço social para Henri Lefebvre Edward Soja (1989) discute a importância da obra do filósofo e sociólogo francês Henri Lefebvre para o desenvolvimento de uma teoria do espaço ancorada sobre a dialética socio-espacial. Para Lefebvre, a estrutura do espaço organizado não é uma estrutura autônoma com suas próprias leis de funcionamento e transformação, nem tampouco uma mera expressão da estrutura de classes emergindo das relações de produção. Ela é um componente, dialeticamente definido, das relações gerais de produção, que são simultaneamente sociais e espaciais. Entretanto, as relações (espaciais) de produção não são dissociadas das relações (sociais de produção), mas sim dialeticamente inseparáveis, num materialismo histórico-geográfico. Assim, a premissa de uma dialética sócio-espacial poderia ser encontrada na ideia de Lefebvre de que o espaço tanto expressa as relações sociais quanto reage diretamente sobre elas. Foi na obra  A produção do espaço  (2006), srcinalmente publicada em 1974, que Henri Lefebvre formulou com maior ousadia as suas teses relativas à problemática espacial, do que resulta a concepção de uma complexa e abrangente teoria do espaço social. Essa obra encerra também o momento da obra de Lefebvre mais direta e explicitamente voltada à exploração crítica das questões urbanas (e espaciais). No Prefácio  de 1985, Lefebvre (2006) coloca que seu objetivo naquela obra era considerar o espaço (social) não mais como fato da “natureza” ou da “cultura”, tampouco como um meio vazio e passivo (o espaço absoluto, ótico-geométrico, matemático, euclidiano-cartesiano-newtoniano), mas como produto que intervém na própria produção, e como principal aspecto da segunda natureza, efeito da ação das sociedades sobre a primeira natureza. Também em oposição à estrita tradição marxista, na qual o espaço social poderia ser considerado como uma superestrutura, Lefebvre argumenta que, assim como o tempo, o espaço não se situa a determinados “níveis” ou “planos” distinguidos e hierarquizados. O que não significa abandonar a abordagem marxista, mas, ao contrário, aprofundá-la, aportando-lhe novos conceitos. Ainda no Prefácio , Lefebvre (2006) defende que a produção do espaço, ainda que não “dominante” no modo de produção, religa os aspectos da prática, coordenando-os, reunindo-os. O modo de produção produz, ao mesmo tempo, relações sociais e seu espaço, e é assim que ele se realiza, sem que haja correspondência exata entre as relações sociais e as relações espaciais. Se o espaço social intervém no modo de produção, ele também muda conforme mudam os modos de produção (e as sociedades). O conceito de espaço reúne o mental e o cultural, o social e o histórico, segundo a lógica da simultaneidade : justaposição na inteligência e na junção material de elementos. A obra, através da adoção do método regressivo-progressivo , realiza um estudo “para trás” do espaço social na sua história, a partir do presente, remontando à sua gênese, para em seguida retornar sobre o atual para entrever o possível e o futuro. No capítulo introdutório – Propósito da obra  –, o autor (2006) procura situar a tese do espaço social em oposição às concepções do espaço enquanto “coisa mental” afastada do real, na filosofia e na matemática, ou às descrições fragmentadas da “ciência do espaço”, que chegam somente a inventariar o que há no espaço , mas jamais a um conhecimento do espaço . Essa “ciência do espaço” equivale ao emprego político do saber – integrando-o às forças produtivas –, implica uma ideologia que mascara seus usos e conflitos, e contém uma utopia tecnocrática, simulação do futuro nos marcos do real. Lefebvre chama a atenção para a influência do capitalismo nas questões práticas concernentes ao espaço: construção de imóveis, repartição de investimentos, divisão do trabalho no planeta os capitais fundiário, comercial e financeiro etc. O espaço não se situa no capitalismo como lugar passivo das relações sociais, mas se revela ativo (operatório e instrumental) ao exercício da hegemonia. Segundo Lefebvre, por volta de 1910 o espaço comum ao bom sentido, aquele da perspectiva clássica e da geometria, euclidiano e perspectivo, se enfraquece em função de múltiplos choques e agressões. Lefebvre busca uma “teoria unitária” do espaço, capaz de engendrar uma unidade teórica entre campos separados: o espaço físico (da natureza e do cosmos), o mental (da lógica e da abstração formal) e o social. Superar a distância que separa o espaço “ideal” (das categorias mentais, lógico-matemáticas) do espaço “real” (da prática social). Enfim, sua pesquisa concerne ao espaço lógico-epistemológico , aquele que os fenômenos sensíveis ocupam, sem excluir o imaginário, as projeções, os símbolos e as utopias. Para tanto, resgata da economia política os conceitos de  produção  e de  produzir  , e anuncia a  produção do espaço  como conceito teórico e realidade prática, indissoluvelmente ligados. Trata-se de passar dos  produtos  (descritos, enumerados) à  produção . Para Lefebvre, o espaço (social) é um produto (social): ele é um meio de produção e de controle que escapa parcialmente aos que dele se servem. Assim, as forças sociais e políticas (estatistas) que o engendram tentam em vão controlá-lo. Esse espaço é abstrato, mas também real, concreto, instrumental. A especificidade desse espaço social surge quando ele não mais se confunde com o espaço mental (dos filósofos e matemáticos) e com o espaço físico (definido pelo prático-sensível e pela percepção da “natureza”). Ele tampouco se reduz a uma coleção de coisas ou a um vazio preenchido, a uma forma imposta à materialidade, na medida em que ele contém relações sociais. O que interessa é o espaço como totalidade ou globalidade, não reduzido às coisas localizadas no ou sobre o espaço. A dissimulação do fato de que o espaço (social) é um produto (social) se dá sob duas ilusões, que se remetem e se reforçam mutuamente: a ilusão da transparência  (o espaço do idealismo, da transcendência e do pensamento) e a ilusão da opacidade , ou ilusão realística (o espaço da naturalidade e da substancialidade, do materialismo mecanicista). A proposição de que o espaço é socialmente produzido tem certas implicações. O espaço-natureza (físico), espaço natural, se distancia, e a natureza comparece como matéria-  43 prima sobre a qual as forças produtivas de sociedades diversas produzem seu espaço. No espaço do capitalismo, três níveis se imbricam, o da reprodução biológica  (a família), o da reprodução da força de trabalho  (a classe operária como tal), e o da reprodução das relações sociais de produção . De acordo com Lefebvre, produzir um espaço social apropriado, no qual a sociedade geradora toma forma apresentando-se e representando, não se realiza num dia: trata-se de um processo. O espaço desempenha um papel decisivo nessa continuidade, e contém também certas representações dessa dupla ou tripla interferência de relações sociais (de produção e de reprodução). Ganha contorno assim uma importante triplicidade do espaço: a)   A  prática espacial , que engloba produção e reprodução, e que assegura a continuidade numa relativa coesão. Ela secreta o espaço de uma sociedade, ela o produz, dominando-o e dele se apropriando. Corresponde ao espaço percebido , e no neo-capitalismo ela associa a realidade cotidiana (o emprego do tempo) e realidade urbana (os percursos e redes ligando os lugares separados do trabalho, da vida “privada” e dos lazeres). Como exemplo, Lefebvre afirma que a prática espacial “moderna” se define pela vida cotidiana de um habitante de um conjunto residencial no subúrbio. b)   As representações do espaço, ligadas à “ordem” das relações de produção, aos conhecimentos, aos signos e aos códigos. Correspondem ao espaço concebido  dos cientistas, tecnocratas e urbanista, no qual as concepções espaciais tendem para um sistema de signos verbais elaborados intelectualmente. Trata-se do espaço dominante numa sociedade (num modo de produção). Elas são penetradas de saber (conhecimento e ideologia) sempre relativo e em transformação. Abstratas, elas entram na prática social e política.   c)   Os espaços de representação , que apresentam simbolismos complexos, são ligados ao lado subterrâneo da vida social e à arte. Correspondem ao espaço vivido  através de imagens e símbolos, espaço dos habitantes e usuários. Trata-se do espaço dominado, mas que a imaginação tenta modificar e apropriar, e que que tendem também para sistemas mais ou menos coerentes de signos não verbais. Penetrados de imaginário e de simbolismo, eles têm por srcem a história de um povo e de cada indivíduo. Eles têm um núcleo afetivo: o Ego, a cama, o quarto, a casa, a praça, a igreja, o cemitério. Eles contêm os lugares da paixão e da ação, os das situações vividas. Refere-se assim a um espaço qualitativo, fluido e dinamizado, que por isso recebe as múltiplas denominações de direcional, situacional ou relacional. A triplicidade percebido-concebido-vivido (espacialmente: prática do espaço – representações do espaço – espaços de representação), que supera o binarismo das relações a dois termos, não corresponde de nenhum modo a um modelo abstrato. Para Lefebvre, é imprescindível que o vivido, o concebido e o percebido sejam reunidos, de modo que o “sujeito”, membro de um determinado grupo social, possa passar de um a outro sem se perder. Os produtores do espaço agem segundo uma representação, enquanto os usuários suportam o que lhes é imposto, inserido ou justificado em seu espaço de representação. Pode-se supor que a prática espacial, as representações do espaço e os espaços de representação intervêm diferentemente na produção do espaço, conforme suas qualidades e propriedades, conforme as sociedades, conforme as épocas. Desta forma, segundo Lefebvre, as relações entre esses três momentos – o percebido, o concebido e o vivido – nunca são simples ou estáveis. No Capítulo II – O espaço social  –, Lefebvre (2006) aprofunda seu exame da produção do espaço. Para o autor, não há um  espaço social, mas vários espaços sociais, uma multiplicidade indefinida. Tomados isoladamente, cada um é apenas uma abstração, mas eles existem “realmente” para redes e filiais, leques ou feixes de relações. Esses espaços sociais se compenetram e/ou se superpõem, já que não são coisas limitadas umas pelas outras, ou chocando-se por seu contorno e por sua inércia. Assim, as fronteiras visíveis (muros e cercas, em geral) aparentam uma separação entre espaços. O espaço social só pode ser compreendido segundo uma dupla determinação: conduzido pelos grandes movimentos, e atravessado pelos pequenos movimentos. O espaço social se afirma na sua hipercomplexidade: unidades individuais e particularidades, fixidades relativas, movimentos, fluxos e ondas, uns se compenetrando, outros se afrontando. Para Lefebvre, a forma do espaço social é o encontro, a simultaneidade, a reunião de tudo que há no  espaço, de tudo que é produzido, seja pela natureza, seja pela sociedade. Ao final do capítulo O espaço contraditório , Lefebvre (2006) apresenta a seguinte síntese quanto às características e à complexidade do conceito do espaço social : a) figura entre as  forças produtivas  da mesma forma que a natureza inicial, que ele desloca e suplanta; b) aparece como um produto privilegiado, ora simplesmente consumido [...] como uma ampla mercadoria (viagens, lazeres), ora consumido produtivamente  da mesma maneira que as máquinas, nas aglomerações urbanas [...]; c) demonstra-se instrumental politicamente  permitindo o controle da sociedade, e ao mesmo tempo meio de produção por seu “ordenamento” [...]; d) sustenta a reprodução das relações de produção e de propriedade (propriedade do solo e do espaço, hierarquização dos lugares, organização das redes em função do capitalismo, estruturas de classe, exigências práticas.); e) equivale praticamente a um conjunto de superestruturas institucionais e ideológicas não apresentadas como tais: simbolismos, significações e sobre-significações [...]; f) contém as virtualidades, aquelas da obra e da reapropriação, sobre o modo da arte, mas sobretudo segundo as exigências do corpo [...] (seja espaço de uma contra-cultura, seja contra-espaço, ou alternativa primeiro utópica ao espaço “real” existente) (Lefebvre, 2006, págs. 309-310). 3.   O espaço geográfico para Milton Santos Para Corrêa (1994), a obra de Milton Santos está fortemente influenciada – mas não de forma exclusiva – pelo pensamento lefebvriano. Santos (1977) vai discutir que as categorias de modo de produção, formação sócio-econômica e espaço são interdependente. Deriva daí o seu conceito de formação sócio-espacial, que explicita teoricamente que uma sociedade só se concretiza através do espaço por ela produzido, e que esse espaço só é  44 compreensível através da sociedade. Ou seja, espaço e sociedade não podem ser entendidos como coisas separadas, reunidas a posteriori . Santos (1978) vai considerar o espaço como fator social, instância da sociedade, e não mero reflexo social. É subordinado-subordinante, submetido à totalidade, mas dotado de certa autonomia. O espaço do homem condiciona então a sociedade, compartilhando do complexo processo de existência e reprodução social. Ainda para Santos (1985), o espaço deve ser analisado a partir das categorias estrutura, processo, função e forma, considerados como termos disjuntivos associados em suas relações dialéticas. No texto O retorno do território  (1994), Milton Santos considera que o uso do território, e não o território em si, é que faz dele objeto de análise social. Para o autor, carregamos ainda hoje uma noção de território herdada da Modernidade incompleta e do seu legado de conceitos puros. Em oposição, defende que o território é uma forma impura e híbrida, e que merece constante revisão histórica. O que ele teria de permanente seria o fato de ser sempre o quadro de vida humana. Para Santos, passamos da antiga comunhão individual dos lugares ao Universo à comunhão global: a nova realidade do território é a interdependência universal dos lugares. Nesse processo, o Estado-Nação foi um marco na entronização da noção jurídico-política do território. O território era o fundamento do Estado-Nação que, ao mesmo tempo, o subordinava e o moldava. Hoje, a antiga noção de Estado Territorial dá lugar à noção pós-moderna de transnacionalização do território. Ainda assim, deve-se considerar que, se antes nem todo o território era “estatizado”, hoje nem todo o território é estritamente “transnacionalizado”. Daí o retorno do território, tese defendida pelo autor: mesmo nos lugares mais atravessados pelos vetores de mundialização, o território habitado pode criar novas sinergias e impor uma revanche ao mundo. O território são formas, mas o território usado, sinônimo de espaço humano e habitado, são objetos e ações. Para Santos (1994), esta nova realidade comporta também novos recortes e novos modos de funcionamento do território, chamados de horizontalidades e verticalidades, para além da velha categoria região. As horizontalidades constituem o domínio da contiguidade, dos lugares vizinhos reunidos por uma continuidade territorial. Já as verticalidades são formadas por pontos distantes uns dos outros, ligados por todas as formas de processos sociais. Mas para além da realidade nova das redes – uma parte do espaço –, o autor defende a retomada do conceito de espaço banal de François Perroux, o espaço de todos, todo o espaço. Assim, o território pode hoje ser formado de lugares contíguos e de lugares em rede. Mas são sempre os mesmos lugares, mas que contém simultaneamente funcionalizações diferentes, até mesmo opostas. Trata-se da contraposição entre o espaço banal de todos e o espaço de alguns das redes. Na obra  A natureza do espaço , srcinalmente publicado em 1996, Milton Santos (2009) procede à elaboração de uma teoria unitária do espaço geográfico, entendido como o objeto próprio de trabalho da Geografia. Para tanto, o autor realiza um esforço de compreensão ontológica ( de dentro ) do espaço, o que lhe permite identificar a natureza do espaço, assim como encontrar as categorias e instrumentos de análise para apreendê-lo como ente analítico independente. Partindo da definição do espaço como conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações, o autor reconhece como suas categorias analíticas internas a paisagem, a configuração territorial, a divisão territorial do trabalho, o espaço produzido ou produtivo, as rugosidades e as formas-conteúdo. Identifica também as questões referentes aos recortes espaciais: região, lugar, redes e escalas. Trata também de conceitos constitutivos e operacionais, como a realidade do meio com seus diversos conteúdos em artifício, a racionalidade do espaço a partir da emergência das redes e da globalização, o conteúdo geográfico do cotidiano, e a ordem mundial e ordem local. Para o autor, é a centralidade da técnica que reúne as categorias internas e externas de análise do espaço. Na primeira parte do livro, Milton Santos (2009) explora as noções fundadoras do ser do espaço: a técnica, o tempo, a intencionalidade, materializados nos objetos e ações. O Capítulo 1 –  As Técnicas, o Tempo e o Espaço Geográfico  – trata da natureza do papel das técnicas, que, para o autor, são um conjunto de meios instrumentais e sociais com os quais o homem realiza a sua vida e produz espaço. A técnica constitui assim a principal forma de relação entre o homem e a natureza, ou entre o homem e o meio. Após realizar um inventário de estudos acerca das técnicas para demonstrar a negligência com as mesmas nos estudos geográficos, como se elas não fossem constitutivas do território, o autor argumenta que se deva considerar a própria técnica como um meio. Então, cada novo objeto é apropriado de um modo específico pelo espaço preexistente. É o espaço que redefine os objetos técnicos, ao incluí-los num conjunto coerente (um meio) onde a contiguidade os obriga a agir solidariamente. Em oposição ao dualismo de um meio técnico e de um meio geográfico, Santos considera que só há o meio geográfico, ao qual a técnica se incorpora, e que historicamente evoluiu de um meio natural para um meio técnico-científico-informacional. Como as técnicas se propagam desigualmente, num mesmo pedaço de território podem conviver subsistemas técnicos provenientes de épocas diversas. Destarte, as técnicas permitem que se considere o espaço como fenômeno histórico a geografizar. Acerca da difícil relação entre tempo e espaço, Santos (2009) propõem que se trabalhe com o tempo empiricizado, tornado material e assimilado ao espaço, cuja existência não prescinde de uma materialidade. É por intermédio das técnicas que o homem, no trabalho, realiza essa união entre tempo e espaço, já que as mesmas são datadas e são uma medida do tempo, seja no espaço do trabalho (produção) ou no espaço da distância (circulação). O autor argumenta que só é possível falar da “idade” geográfica de um lugar a partir da datação da sua materialidade artificial, por intermédio das técnicas. Mas a idade das técnicas não seria dada pela data de sua concepção científica, mas pela história da sua incorporação à vida (e ao uso) de uma sociedade. O autor considera também que os lugares redefinem as técnicas, na medida em que cada objeto ou ação que se insere em um meio preexistente tem seu valor modificado pelo funcionamento do conjunto. É assim que se constitui o tempo do lugar. O Capítulo 2 – O Espaço: Sistemas de Objetos, Sistemas de Ações  –, trata do movimento da produção e da vida, através dos objetos e das ações. O autor recupera formulações próprias anteriores, como a noção do espaço  45 como sistema de fixos e fluxos, e as relações entre configuração territorial e relações sociais. Mas ressalta a distinção entre a configuração territorial – ou geográfica –, entendida como materialidade, e o espaço, que reúne essa materialidade mais a vida – as relações sociais – que a anima. Santos afirma que o espaço é formado por um conjunto indissociável, solidário e contraditório de sistemas de objetos e sistemas de ações, e que o espaço de hoje é cada vez mais formado por objetos e ações artificiais. Ao mesmo tempo em que o sistema de objetos condiciona a forma como se dão as ações, o sistema de ações leva à criação de novos objetos ou se realiza sobre os objetos preexistentes: reside nessa interação a dinâmica de transformação do espaço. Os objetos são definidos como coisas cuja utilização pelos homens se dá a partir de um conjunto de intenções sociais. Mas eles não funcionam isoladamente: daí a necessidade de se falar de sistema de objetos. Para Santos (2009), os objetos que interessam à Geografia podem ser tanto móveis quanto imóveis, sendo do domínio tanto da Geografia Física quanto da Humana. Os objetos geográficos são tudo o que existe na superfície da Terra, herança da história natural e do resultado da ação humana objetivada. Eles são esse extenso, essa objetividade, que se cria fora do homem e se torna instrumento material de sua vida. Deste modo, os objetos geográficos são obrigatoriamente contínuos, e o espaço dos geógrafos deve levar em conta todos os objetos existentes numa extensão contínua, na medida em que os objetos constituem sistemas, e não meras coleções. É dispensável a procura por um objeto com existência separada, um objeto geográfico em si. O que interessa é tratar geograficamente os objetos encontrados, partindo-se da utilização das categorias analíticas e de conceitos derivados. Assim, pode-se falar que o significado e valor geográfico dos objetos vêm do papel que eles desempenham no processo social pelo fato de estarem em contiguidade, formando uma extensão contínua, e sistematicamente articulados. Já a ação deve ser compreendida como processo dotado de propósito, um comportamento orientado a um fim. Só ao homem cabe a ação, já que a natureza é cega e não tem futuro. Santos chama de alienação regional ao fato das ações serem cada vez mais estranhas aos fins próprios do homem e do lugar, em função da crescente separação entre a escala de comando e a escala de realização da ação. Distinguem-se também os atores que decidem (governos, empresas multinacionais etc.) dos atores que não tem muita possibilidade de decisão, particularmente quanto às ações racionais por via do instrumento, assentadas sobre os objetos técnicos. O autor distingue então entre três formas de agir: técnico, formal e simbólico, através do qual se dá o cotidiano. As ações são resultantes de necessidades, naturais ou criadas, e que levam a funções. Essas funções, realizadas através de formas sociais, conduzem à criação e ao uso de objetos, formas geográficas. Por fim, Santos considera que objeto e ação, materialidade e evento, devem ser sempre tratados unitariamente, e que eles não se geografizam indiferentemente à relação entre o valor da ação e o valor do lugar. O Capítulo 3 – O Espaço Geográfico, um Híbrido  – apresenta a produção e reprodução do espaço, com a sucessão interminável das formas-conteúdo, como o traço dinâmico central de uma ontologia espacial. Partindo da noção de intencionalidade como um movimento consciente e voluntário do agente na direção das coisas, Santos associa a intencionalidade da ação à intencionalidade do objeto, mas lembra que os resultados da ação humana não dependem apenas da decisão racional. Segundo o autor, a evolução que marca as etapas do processo de trabalho e das relações sociais marca também o espaço geográfico. Como cada padrão espacial é tanto morfológico quanto funcional, um novo padrão pode se dar sem que os objetos sejam outros ou mudem de lugar, já que um mesmo objeto varia sua significação e valor ao longo do tempo, conforme o sistema de técnicas e o meio geográfico no qual ele está inscrito. Dessa forma, pode-se afirmar que uma coisa não pode existir à parte do contexto, ou do espaço geográfico, que é sempre total e jamais homogêneo. Santos (2009) recorre à noção de conceitos híbridos de Bruno Latour, em oposição aos conceitos puros e dualistas da modernidade, para avançar na construção epistemológica do espaço. Recupera a sua noção de forma-conteúdo, correspondente às ideias de mistos ou híbridos, na qual a forma não existe sem seu conteúdo, e vice versa. O autor procede, finalmente, à distinção epistemológica entre paisagem e espaço. Enquanto a paisagem é o conjunto de formas que, num dado momento, exprime as heranças que representam as sucessivas relações localizadas entre homem e natureza, o espaço são essas formas mais a vida que as anima. A paisagem seria a porção visualmente abarcável da configuração territorial, conjunto de elementos naturais e artificiais que caracterizam fisicamente uma área. O espaço resulta da intrusão da sociedade, das suas necessidades e funções atuais, nas formas-conteúdo atuais ou herdadas do passado. Assim, o espaço é tanto formado pelo resultado material acumulado das ações humanas através do tempo, quanto animado pelas ações atuais que lhe atribuem um dinamismo e uma funcionalidade. Assim, os movimentos da sociedade, ao atribuírem às formas geográficas novas funções, transformam a organização do espaço. Essas formas, tornadas formas-conteúdo, participam então de uma dialética com a sociedade. Somente a sociedade anima as formas espaciais, atribuindo-lhes um conteúdo. Apenas a forma utilizada, tornada forma-conteúdo, constitui o espaço. Na medida em que não existe dialética possível entre formas, a dialética que se dá é sempre entre sociedade e espaço (e não paisagem), já que a sociedade está agindo sobre ela mesma, e não sobre a sua materialidade exclusivamente. O espaço é, enfim, essa síntese, sempre provisória, entre o conteúdo social e as formas espaciais. 4.   O território para Rogério Haesbaert Na obra O mito da desterritorialização , srcinalmente publicada em 2004, Rogério Haesbaert (2012) argumenta que não há uma definição conceitual clara de “território” nos debates acerca da desterritorialização, entendida sempre numa relação dicotômica em relação à (re)territorialização, e associada sobretudo à predominância das redes (como opostas aos territórios). O autor defende que o que muitos chamam de desterritorialização corresponderia na verdade à intensificação da territorialização no sentido de uma
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